31 Agosto, 2005

Estar presente


Trecho extraído do livro "Um modo de entender, uma nova forma de viver", de Francisco Neto, ditado pelo espírito Hammed.

"Conta a tradição oriental que certa vez, Sidarta Gautama - Buda - já em idade bem avançada, passava por uma floresta junto com seus discípulos quando encontrou aprendizes de outro mestre, e um deles foi logo dizendo: "Nosso mestre é um grande avatar. Ele levita e faz materializações extraordinárias. Nós mesmos presenciamos isto, somos testemunhas!" E, fixando o olhar nos discípulos de Buda, inquiriu: "O que vocês têm a dizer sobre seu mestre? O que ele pode fazer, que milagres realiza?"
Sidarta Gautama tudo escutava silenciosamente e deixou a cargo de seus companheiros a resposta. Apenas observava o desempenho de cada um. Então, um logo se adiantou e respondeu:
"Nosso mestre, quando está com fome, come; e quando ele tem sono, dorme. Ele nos ensina a andar quando estamos andando; a comer, quando estamos comendo; a sentar, quando estamos sentados." E um deles, inconformado, exclamou: "O que vocês estão falando?! Chamam de milagres o óbvio?! Todos fazem essas coisas!!"
E o ponderado discípulo de Buda retrucou: "Engano de vocês. Quase ninguém faz isso. Quando as pessoas dormem, pensam sem cessar, estão dispersas no sono. Quando comem, estão distraídas, falando mil coisas. Quando andam, estão desatentas e qualquer ocorrência lhes rouba a atenção. Mas, quando meu mestre dorme, ele apenas dorme: somente o sono existe naquele momento, nada mais. E quando sente fome, ele apenas come. Ele sempre está no lugar onde deve estar, ou seja, jamais é arrebatado pelos fatos ou acontecimentos que se foram e pelos que hão de vir; vive sempre no momento presente."


Não é preciso nenhum comentário...

26 Agosto, 2005

Histórias compactas


- A gente tem muita história, né “linda”?
- Nossa, “mor”...muita é pouco, afinal, dez anos juntos rendem muitas histórias engraçadas, loucas e tristes também...
- É...mas o mais legal disso tudo é que as nossas histórias tristes sempre serviram de lição...
- Aham. E as engraçadas entraram pra história, hahaha...ai, ai...
- Do que tu tá lembrando aí? Conta, vai...
- Lembro da vez que fomos ao motel e tu esqueceu as chaves dentro do carro, e voltamos pra casa de táxi!!! Simplesmente hilário...e naquela mesma noite dançamos sozinhos na pista até fechar o bar, onde só você me bastava, e pra você, bastava eu.
- Hahahaha...bem lembrado...grande noite! Mas conta aí. Gosto de te ouvir falar. Conta as nossas histórias pra eu ouvir.
- Hummm, folgado! Tá bom, mas me ajuda a lembrar. Deita aqui no meu colo, vai!
- Obaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!
- Então...lembra da vez que fomos na formatura de Administração da Sandrinha, e erramos o lugar? Fomos parar numa formatura de História, hahaha...
- É mesmo!! E nos entreolhamos com aquela cara de “O que a gente tá fazendo aqui??”. Hahaha....boa!
- Hehe...lembro também da tua mania de me fazer flores de papel em todo restaurante, bar ou padaria que a gente entrasse. Tu acabava com os guardanapos de papel de todos os lugares e eu morria de vergonha! Mas era muito romântico. Lembro também que, pelo menos uma vez por mês, chegava um Sedex com alguma surpresa tua. Primeiro foi uma lata de bolachas, depois o CD com músicas românticas – algumas bregas, diga-se de passagem – e por último, antes da gente brigar feio, foi mais uma flor de papel, mas a mais linda que tu já me fez, encharcada com o teu perfume...
- Pô...que romântico que eu sou...ou era, hehehe!!!
- Pra tu ver...sem falar nas vezes que tu me acordava cantando no meu ouvido: “eu tenho tanto/pra lhe falar/mas com palavras/não sei dizer/como é grande/o meu amor/por você”. Nossa, até me arrepiei!!!
- Ah, mas isso eu faço até hoje, "negrinha"!!
- É, mas só quando não dorme mais que a cama, né "gordo"!! Mas enfim...lembra daquela vez que bebemos champagne na praia, á tardinha? O sol caindo, o mar furioso, e nós lá, com um isoporzinho cheio de gelo, umas taças de plástico e uma champagne! Que momento!
- Nosssssssssa...muito bom!
- E quando ficamos naquele hotel-espelunca na frente da rodoviária, bem no início do namoro, lembra?
- Se lembro...o quarto era péssimo, o frigobar era bambo, o box do chuveiro só cabia “meia-pessoa”, mas lá estávamos nós, entre beijos e suspiros...e tu, com aquele cheiro de lança-perfume...
- Não entendo de onde tu tirou que eu estava com cheiro de lança-perfume, mas tudo bem...a noite foi ótima. Depois daquilo, nos separamos por um tempo, lembra?
- Lembro sim, e aquele período foi bem difícil. Eu passava todas as noites na frente da tua casa e parava o carro pra olhar a tua janela. Eu ficava lá, dentro do carro, ouvindo meus cd's de jazz e olhando a janela, com esperança que tu aparecesse. E sempre, naquele horário, tinha um taxista parado no ponto da esquina da tua casa. Sempre o mesmo. Um dia ele veio falar comigo, pra saber o que eu tanto fazia ali. Eu desconversei, não falei a verdade. Mas então, conversa vai, conversa vem e, do nada, ele me diz:
- “ Sabe moço...eu perdi o grande amor da minha vida há três anos. E não tem um dia sequer na minha vida que eu não peça à Deus pra me levar pra junto dela. Hoje eu vou “sobrevivendo” e esperando este dia chegar. Então moço, se tu encontrou o amor, não perde tempo, não. Não deixa ele escapar, pois a vida é curta.”, virou as costas e saiu, sem nem se despedir. Sabe que dia foi esse??
- Não...???
- Foi o dia em que eu te pedi em casamento. Naquela mesma noite em que eu bati na tua porta, me ajoelhei com o Cacto na mão pra te dar...e fiz o pedido.
- Nossa amor...como que tu nunca me contou esta história?? Tô emocionada! Este taxista foi um “enviado” pra te dizer estas coisas, só pode ser. Foi um sinal de que a gente tinha mesmo que ficar junto!
- Eu pensei nisso também. Por isso que tomei a decisão naquele exato momento, de invadir a tua casa e passar o resto dos meus dias contigo...tinha que ser naquele momento...e foi!!! Tanto foi que estamos aqui, agora.
- Ai, ai, amor! Que história linda! Tá vendo ó, já me fez chorar...!
- Chora não...me faz uma "torta-de-bolacha com Nutella" que fica tudo resolvido! Hihihi!!
- Seu aproveitador barato!! ‘Bóra’ pra cozinha me ajudar, malandro!
- Obaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, é pra já!!! Vou aproveitar e abrir aquele vinho...
...e viveram felizes para sempre.
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"Ainda lembro o que passou
eu, você, em qualquer lugar
dizendo: 'Aonde você for, eu vou.'
eu nem pensava em ter que esquecer você"

18 Agosto, 2005


Há exatos 27 anos, vinha ao mundo uma garotinha...ela cresceu e se tornou uma mulher. Esta mulher é quem vos escreve neste momento, sem a mínima inspiração...
E VIVA EU!!!!!
Hoje, a verdade é uma só: sou a última coca-cola do deserto. Com gelo e limão.

13 Agosto, 2005

Do que as mulheres "gostaríam"...


Ai, ai...aqui estou, numa sexta-feira a noite, em casa. Se eu pudesse, neste momento estaria num boteco, bebendo uma cerveja “Original” e ouvindo uma musiquinha ao vivo. Beeeem satisfeita. Que coisa.
Gostaria de ser homem neste momento, pra poder sair sozinha sem ninguém ficar olhando ou falando. Poder, eu posso, eu sei, e sei que é ridículo se importar com o quê os outros pensam, e blá, blá, blá...mas não é disso que quero falar.
Quero expor minha indignação. Devíamos possuir as mesmas facilidades que os homens possuem, sem sermos taxadas de vagabundas, loucas, e por aí vai.
Gostaríamos de poder tirar a camiseta na rua, num dia de calor (muitos marmanjos devem estar lendo isto agora e dizendo: “Por mim pode tirar, vou até gostar!”. Babaca!!!). Gostaríamos de poder fazer xixi em qualquer lugar, com a mesma praticidade. Gostaríamos de poder “comer” vários homens sem ganhar fama de vagabunda. Gostaríamos de poder beber todas, sair engatinhando da balada, e isto não parecer tããão vulgar assim. Gostaríamos de poder trair o namorado várias vezes, e sermos admiradas por isso. Gostaríamos de conseguir um emprego somente pelo nosso talento, e não porque somos lindas, bundudas, loiras ou morenas. Gostaríamos de conseguir com mais frieza transar por transar, não se envolver, não misturar as coisas. Gostaríamos de poder entrar num bar qualquer, pedir um martelinho e virá-lo num gole só, batendo com o copinho no balcão e dizendo bem alto: “Calibra, chefia!”, sem que ninguém ficasse nos olhando como se a polícia andasse atrás da gente. Gostaríamos de comprar camisinhas na farmácia sem que o balconista nos olhasse com aquela cara de: “Hummm, hoje tem!”. Gostaríamos de ficar esparramadas no sofá vendo “Sex and the City”, enquanto a louça está sendo lavada, a roupa passada e a janta feita pelo maridão, e ainda “dar aquela” antes de dormir. Gostaríamos de ter a capacidade de dizer “te ligo amanhã”, e depois sumir do mapa, sem nos sentirmos nem um pouquinho culpadas por isso.
Enfim, pra fechar com o motivo pelo qual me inspirei pra escrever este texto – e agora falo só por mim, porque sei que existem mulheres que conseguem fazer isto (e não são poucas), gostaria de me arrumar bem linda e cheirosa e, solita, ir pra uma festa lotada, dançar a noite inteira no meio da pista bebendo um whisky com energético, passear pra lá e pra cá, falando com uns e com outros, me sentindo linda, leve, solta e muito segura de mim, sem que isso parecesse, no mínimo, moderno demais. Que fosse a coisa mais natural do mundo. Sem hipocrisia, sem rótulos, sem “famas”.
E enquanto acabo este texto, me pego pensando: “e por que é que eu não fiz isto, caramba???”

P.S. Você aí, amiga leitora, que lembrou de mais algum “gostaríamos...”, comente por favor...devo ter esquecido de algo! E se você não concordou com nada (ou quase nada) do que eu escrevi, comente também!

09 Agosto, 2005

Da série "amiga verdadeira"...


- Estás sabendo do jantarzinho que o Almeida vai dar na casa dele?
- Tô sim. Mas o Beto anda cansado, ainda mais com o nosso casamento se aproximando, ele diz que precisa relaxar para o “grande dia”.
- Nossa! Mas falta quase um mês! O jantarzinho do Almeida é sexta-feira, cedinho...não será uma “festa rave”...e o Beto pode pegar leve na bebida pelo menos uma vez na vida né, Heloísa! Ele não precisa beber todas e sair pendurado no teu pescoço, como sempre!
- Você tem razão. O Beto sempre pega pesado mesmo. Será que quando a gente casar ele vai mudar? Ai Maitê, tenho que confessar...ando muito apreensiva! Me pego pensando se é isto mesmo que quero pra minha vida...se fiz a escolha certa, se deveria esperar mais...será que não é fogo de palha casar com apenas seis meses de namoro, e ainda por cima com uma pessoa que conheci na internet?? Deveria ter pensado nisso antes...
- Dois mil e cinco, Helô!! Dois mil e cinco!! Por onde tu andavas este tempo todo? Em coma? Os tempos mudaram, meu bem! Hoje em dia a mulherada tá matando cachorro a grito, agarrando o que vier! Se tá difícil no mundo real, apela-se para o virtual! Não dá pra ficar escolhendo muito não...e olha, no fundo, lááá no fundinho, o Beto é um cara legal. Ele é engraçado...tem mãos bonitas...(humm, deixa eu pensar)...gosta de cinema como você...tá certo, ele só gosta de comédia-pastelão, mas dá pra encarar. Ah, e conta piada que é uma beleza!!!!

- Mas isso não é nada perto do que eu idealizo num homem...eu quero mais! Quero um homem sensível, que abra a porta do carro pra mim, me mande flores sem motivo, cante pra eu dormir...
- Começo a acreditar que estavas em coma mesmo...
- Ah, Maitê...é pedir demais?? Acho que não, né...cadê a auto-estima?
- É verdade...e olha...pelo que eu sei da Flavinha lá do RH, que namorou com ele 4 anos...
- A Flavinha namorou com ele quatro anos????? Ele disse que nem a conhecia quando encontramos com ela no shopping!!!!! Ai meu Deus...
- Que eu saiba, namorou sim...mas o que passou, passou...e ela, com aquele cabelão loiro e liso natural, aquele peitão empinado e aquela bunda de Juliana Paes, deve ter uma fila de empresários ricos querendo casar com ela, nem se preocupe...
- !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
- Então amiga, pelo que ela me falou, o Beto sempre foi meio beberrão, mexia com as mulheres na rua, chamando de “princesa”, “gatinha”, “goxxxtosa”. Ela disse também que ele deixava a unha do dedo-minguinho crescer pra poder coçar o ouvido, usava o banheiro da casa dela de porta aberta, comia bolacha na cama e deixava farelo, e que, quando ele falava muito, criava aquela gosminha branca nos cantos da boca, sabe? Essas coisas...
- Blargh!! Que nojento!! Isso é sério?? Aiiiii Maitêêê...
- Calma Helô, dá tempo de desistir até a hora em que o padre perguntar “você aceita Beto como seu legítimo esposo?”...mas, pensa bem, porque dependendo da tua resposta, JÁ ERA, querida...hihihi!
- Você ri, né?! Porque não é com você, né Maitê?! Enxoval completinho, apê mobiliado, pais e sogros cheios de expectativa, convites distribuídos, jantar encomendado...acha que é assim, jogar tudo pra cima e deixar cair na cabeça dele?? Tenha dó!!
- Mas então por que se atirou de cabeça sem conhecê-lo melhor, Helô? Não adianta chorar as pitangas agora! E em seis meses já dá pra ver o “trailler” do que vai ser o teu romance! Amigaaaa! Respira fundo! Engata primeira e levanta poeira, menina!
- É...tenho que me agarrar nas coisas boas. Em tudo de bom que passamos juntos. As viagens, as risadas, as transas loucas, os planos que fizemos juntos, os filhos que virão...ai, ai!!! Eu gosto dele sim!! (mantra: eu gosto dele, eu gosto dele, eu gosto dele...).
- É Helô...é um bom caminho.
- É...já estou me sentindo bem melhor. Mas....Maitê???
- Fala amiga...
- É mesmo verdade a história da “gosminha” no canto da boca...???

08 Agosto, 2005

Texto esquizofrênico de aniversário


Meu aniversário se aproxima. Eu simplesmente AMO o dia 18 de agosto. Há quem não goste de fazer aniversário - o que é inevitável - e odeiam que os outros lembrem, cumprimentem, preferindo que o dia passe em branco. Não fazem nem um bolinho, não tomam nem uma cervejinha. Eu realmente não consigo entender essas pessoas. Será que não gostaram de vir ao mundo, ou não conseguem confraternizar a soma de experiências sem uma perspectiva pessimista, do tipo "quedrogaestouficandovelho"? Freud deve explicar esta patologia...
Eu só sei de mim. O mundo gira ao meu redor no dia 18. Me sinto "a tal", a boa, a última coca-cola do deserto, a última "Negresco" do pacote, a azeitona da empada. O dia é meu e de mais ninguém. Não quero nem saber quem foi que nasceu no mesmo dia! Só eu posso brilhar. Sou leonina, afinal!
Só tenho ótimas e belas recordações de meus aniversários. Desde pequena (sim, um dia já fui pequena), tenho o hábito de fazer festas grandes. Convidava todos os coleguinhas da classe com um aviso gigante no quadro negro. Ajudava a enrolar mais de quinhentos branquinhos e negrinhos, e a rechear os cachorrinhos-quentes.
A costureira fazia uma roupa exclusiva pra festa. Eu não dormia na noite anterior, ansiosa com os presentes que iria ganhar no grande dia. Meus pais sempre na correria, pra que tudo fosse perfeito.
A festa era sempre inesquecível e regada de quitutes e docinhos da mamãe. Muito som alto - na época, a melhor "banda" era o Balão Mágico - a criançada correndo e suando, brincando de pegar, de esconde-esconde, de "gato mia".
Depois de mais crescidinha, o legal eram as "discotecas". Meninos sentados de um lado, meninas do outro. Colocava o LP no "toca-discos" - de preferência o disco "Top Model internacional" - e logo os meninos já começavam a se esquematizar pra ver quem iria tirar quem...bons tempos, a época da inocência!
É muito importante comemorar o próprio aniversário. É o começo do ano, é o dia em que tudo fez sentido pra muita gente, principalmente para os pais. Porque nascer é traumatizante pra quem nasce, embora a gente não lembre. Tu tá lá, bem quentinho, no escurinho, e de repente resolvem te arrancar de lá de dentro, sem aviso prévio, nem nada! Daí, quando tu chega aqui fora, é frio, luz forte, barulho, é gente falando com voz melosa: "Olha só que bonitinho, 'cuticuticuti', que coisa mais querida da vovó, do titio, da priminha"...não é mole não!!!
Bom, chega de papo. Só pra dar uma reforçada, vou fazer minha festa no dia 20 de agosto, lá no Parque Tênis Clube (Pelotas, RS), e tá todo mundo convidado. E como "não tá fácil pra ninguém", prometo que a cerva vai estar barata, hehehe!! O rock'n roll vai comer solto naquele clube! Jezebel 2005 (www.leopoldoejezebel.blogspot.com), com novo repertório, caprichado e exclusivo! Vai ter gente dançando até nas quadras de tênis!!!
É issaêê, caro leitor(a)! Te espero lá!

07 Agosto, 2005

Viajando - Parte II


Não esquecer daquele casaco de lã, da calça jeans desbotada e daquela bota de camurça surrada. Do secador de cabelo, do gloss e do rímel, e daquele lápis branco que deixa o olhar mais bonito. Shampoo, condicionador, escova de dente e fio dental – duvido eu lembrar de pegar. Blusinha regata se fizer calor, casaquinho de capuz se rolar uma brisa, blusão de gola alta pra friaca. Livro, walkman, óculos de grau, palavras cruzadas. Ah, não esquecer o tapa-olho, senão não durmo de manhã.
Também não posso esquecer de pegar meu coração na estante, minhas risadas na gaveta e meus suspiros no armário. As lágrimas vou deixar por aqui, acho que não vou precisar por enquanto.
Não esquecer de pegar a coragem, que ficou no conserto. O medo tava quase passando da validade, daí já joguei no lixo. A esperança vai comigo, na bagagem de mão – já vou separar pra não esquecer.
As lembranças, guardei numa caixa e deixei no armário. Estão meio pesadas pra levar junto. Procurei o ânimo por toda parte, mas ainda não encontrei...eu tinha certeza de que usei ele em algum momento, mas agora não lembro onde guardei.
A ansiedade já guardei na mala faz tempo, fiquei com medo de esquecê-la. Os sorrisos irão vestidos em mim, assim não pago excesso de bagagem. A tristeza só levei um pouquinho e escondi bem, vai que alguém resolve revistar minha mala?
Malas afiveladas, passagem na mão...mas peraí? Tô esquecendo de alguma coisa...
A saudade!!! Aaah, a saudade...impossível esquecê-la. Essa vai comigo aonde quer que eu vá.
E o dia em que ela não mais me acompanhar, terei chegado ao meu destino, ao meu porto seguro...

06 Agosto, 2005

Chico



Há dias que estou com uma música do Chico Buarque na cabeça, e resolvi colocá-la aqui.

Olhos Nos Olhos

Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando
E me pego cantando, sem mais, nem por quê
E tantas águas rolaram
E quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você
Quando talvez precisar de mim
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos
Quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz

...

04 Agosto, 2005


“O bom filho á casa torna”. Sim, eu sei que demorei pra atualizar o blog, a culpa é do ócio que se instalou, e que não se mostrou nada criativo.
Cá estou, em meu retiro espiritual, na cidade "número um" do Rio Grande do Sul. Um supermercado, uma praça, uma igreja, um restaurante descente, um barzinho com música ao vivo (no qual até crianças freqüentam), uma locadora de DVD, uma academia, uma farmácia, uma padaria, um açougue...
A sensação, ao caminhar pelas ruas, é a de andar em círculos. Dei algumas voltas na quadra, na praça, passei pelo banco, pelo supermercado e, como num passe de mágica, já estava na porta de casa novamente. Tentei caminhar um pouco para me exercitar e mandar embora todas as calorias acumuladas nestes dias filme-almoço-internet-filme-pipoca-jantar-filme-churrasco-pavê de bolacha, juntamente com meu sobrinho Kenny – um labrador gigantesco e bobalhão – mas a cidade acabou antes de eu conseguir completar meia-hora de exercício. Eu já estava constrangida de passar pela milésima vez na frente daquele boteco cheio de gaúchos pilchados e seus cavalos “estacionados” na calçada. A pior cantada que já levei na vida em outras épocas foi o comentário “essa é charolês”, e vi a imensa probabilidade de levá-la novamente por essas bandas. Voltei para o meu rebanho, digo, pra casa.
Essa coisa de não fazer nada e não ter que se preocupar com nada trouxe à tona muita coisa que estava agendada aqui na minha cachola, esperando providências.
“Cabeça vazia, oficina do diabo”. Mas até que o diabo fez o serviço direitinho, pois alguns pensamentos eu consegui mandar para os ares, porque só estavam ocupando espaço aqui dentro (e olha que o espaço não é muito grande). Tomei a iniciativa e a coragem de resolver coisas que me incomodavam, me obrigando a entrar em contato com elas, o que não foi muito fácil. Os 495 anos de terapia precisavam servir para alguma coisa, afinal.
Fora tudo isso, também ando exercitando muito o meu esporte favorito: cozinhar. Fiz várias sobremesas e uma janta bem gostosa, na qual meu irmão e minha cunhada se deliciaram até terem que abrir o botão da calça. Quando estou na cozinha, as horas passam voando, pois fico tão concentrada que, quando vejo, a noite chegou e já tá na hora de servir o rango.
Resumindo, é isso. Até que, fazendo o balancete da semana até agora, acho que fecharei com saldo positivo. Tanto em gordurinhas acumuladas quanto em fantasmas exorcizados.
Enquanto isso, “na sala de justiça”, vou dando mais serviço ao diabinho...